Estou começando a acreditar que o meu “eu dormindo” é uma criatura gorda, visto que mais uma vez eu sonhei com uma cena maluca que tinha algo a ver com comida.

Em meu sonho eu estava em uma espécie de laboratório instalado em um daqueles prédios antigos e bonitos, repleto de detalhes arquitetônicos, com grandes e altas janelas de vidro que enchiam o ambiente de luz, mas que não permitiam que se visse do lado de fora. Parecia ser um dia com muito sol.

O laboratório ocupava um salão enorme, com o pé direito muito alto, dividido em dois pavimentos por um mezanino, cujo acesso se dava através de uma escada feita de madeira negra.

Não me recordo de nada do pavimento inferior, pois o sonho transcorreu todo no mezanino, onde o piso e o guarda corpo eram de madeira negra como a escada, assim como também eras negras todas as estantes dispostas ao longo das pareces e que estavam repletas de potes, vidros e um monte de coisas de formatos, cores e conteúdos estranhos.

Sempre me surpreendo com o fato que nos sonhos somos capazes de identificar algumas coisas com total clareza, por mais estranhas e malucas que possam ser, e neste sonho não foi diferente.

O que percebi primeiro foi que aquilo, aliás, aquele lugar não era um laboratório, era o interior de alguém. Não sei bem se era o coração ou a mente, ou ainda só o seu interior, o seu íntimo.

No centro do mezanino havia uma mesa larga e muito comprida, ocupando quase todo o comprimento do lugar. Ela era branca, com o tampo feito de um material que lembrava fórmica.

Sobre a mesa havia o que me pareceu ser um bolo sem forma definida, sendo que ao redor dele, sobre ele e entre ele eu vi um sem número de equipamentos, vidrarias, potes e caixas de tamanhos diversos, além de outros objetos que não reconheci nem fiz a menor ideia de qual era a serventia ou objetivo.

Depois notei que o bolo não era uniforme. Em alguns lugares ele parecia seco, velho e apresentava rachaduras e fendas que separavam o bolo em vários pedaços.

Por último, percebi que não estava sozinho, contudo não conseguia ver outra pessoa, apenas sentia sua presença. Sentia também emanando dela uma sensação de insegurança, de indecisão quanto ao que deveria fazer.

Como também costuma ser comum nos sonhos, eu sabia porque estava ali e o que era preciso ser feito. Era preciso decidir, corrigir e consertar as partes que estavam com problemas, escolhendo, misturando, preparando e aplicando os ingredientes que estavam espalhados por toda a nossa volta.

Uma área em particular chamou minha atenção. Naquele local, a massa estava acinzentada, quebradiça e sem vida, com uma aparência triste e vazia de alegria e bem estar. Ao fazer uma análise da região, identifiquei duas características: a primeira era a interligação daquela parte do bolo com todo o restante e que aquela situação estava comprometendo o bolo todo; a segunda característica era que a situação daquele pedaço havia sido provocada por algum fator externo, um ingrediente errado que estava ressecando aquela parte.

Então, eu entendi o que estava acontecendo e o que era aquele lugar. Eu estava no Centro Emocional de alguém (sim, eu sabia que era de outra pessoa) e que aquela presença que sentia era uma espécie de confeiteiro de emoções que, como acontece com qualquer um, tem dias ruins onde não consegue produzir direito e neste caso, ele não conseguia decidir-se se devia corrigir o bolo e se deveria realmente fazê-lo, visto que o que provocou o dano na receita ainda estava incomodando, e eu… bem, eu estava ali para ajudá-lo.

A nossa frente haviam 3 caminhos possíveis. Poderíamos deixar tudo como estava, poderíamos remover a parte ruim ou corrigir o dano de alguma forma.

Deixar como está é o mesmo que ignorar o problema e como já disse antes, problemas existem para serem resolvidos e ignorá-los só cria mais problemas.

Remover a parte ruim equivale a jogar lixo e porcaria para fora, numa tentativa nada inteligente de devolver seja lá o que tenha nos ferido ou as mesmas coisas e atitudes que nos fizeram mal de volta para o autor do que nos atingiu, ou seja, pagar com a mesma moeda.

Podemos ainda corrigir o dano e buscar melhorar a situação.

Como sou otimista, considerei a resolução do problema como a ação a ser executada, recuperando então a parte danificada, hidratando-a e reunindo os pedaços soltos, remendando tudo com uma calda doce e vermelha que possuía um aspecto muito bom e que logo depois se solidificou, dando-lhe a consistência e a cor de bala de frutas vermelhas.

Após terminarmos a operação, a parte danificada imediatamente reagiu e assumiu uma saudável e saborosa aparência de bolo de limão com cobertura de açúcar de confeiteiro e assim que a transformação terminou, eu acordei.

Fiquei deitado por mais algum tempo, relembrando o sonho, procurando reter na memória o máximo de detalhes que me fosse possível e obviamente com uma enorme vontade de comer bolo (riso).

Pensei também na escolha pela correção, na seleção de ingredientes doces ao invés de amargos, na decisão pela atitude positiva e construtiva, e confesso que levantei-me sentindo-me muito bem.

Como gestores, imaginemos que o laboratório é uma empresa e que tudo o que há nele — mesa, prateleiras, os diversos objetos e o bolo — são todos os recursos que a compõe, ou seja, seus colaboradores, equipamentos, fornecedores e clientes e o restante.

Ainda usando a imaginação, me diga: Qual dos 3 caminhos você geralmente escolhe?

Você ignora, você reage negativamente ou é proativo e busca uma resolução do problema?

Outra coisa, quando se sente inseguro e indeciso você fica paralisado até o problema passar de alguma forma ou age como o confeiteiro de emoções e aceita ajuda?

E suas atitudes? Costumam ser doces ou amargas?

É fundamental compreender que assim como nós mesmos, nossas empresas e nossa vida profissional são organismos vivos, onde se uma parte está com problemas, o restante sofre, seja em aumento de gastos, seja em perda de produtividade ou competitividade ou qualquer outra coisa que afete negativamente nossa performance empresarial ou profissional.

Compreender que um clima organizacional positivo é fundamental para o desenvolvimento e crescimento correto, tanto das pessoas envolvidas quanto do próprio negócio deve se um dos principais objetivos de qualquer gestor, independentemente do tamanho da empresa ou do negócio.

Procure agir como um confeiteiro de emoções, buscando sempre a melhor receita, os melhores ingredientes, a harmonia e o equilíbrio entre eles para sempre alcançar o ponto certo.

Ah! Peça e aceite auxílio, mesmo quando achar que não precisa. Note que eu disse achar ao invés de acreditar, porque quem só acha não tem certeza, diferentemente de quem acredita, além do que outro par de mãos assim como uma segunda opinião costumam ser bem vindos.

Tornar o ambiente empresarial mais doce é bom para os negócios e é bom para você. Pense nisso!

Comentário Final:

A reflexão central deste texto sobre como lidar com os problemas emocionais e profissionais se conecta de maneira interessante com outros artigos já abordados. Assim como o “confeiteiro de emoções” que decide corrigir a situação ao invés de ignorar ou reagir negativamente, em [Felicidade Insatisfeita] também exploramos o desejo constante de melhorar e buscar mais para atingir a satisfação. Além disso, a importância de um ambiente saudável e de buscar equilíbrio é alinhada com o que foi discutido em [Afinal o que é ser Líder], onde o líder precisa tomar decisões construtivas, assim como o confeiteiro que toma a atitude de transformar o ambiente ao seu redor. Também podemos refletir sobre os dilemas de escolha e ação mencionados no texto e compará-los com os caminhos de decisão propostos em [Entre o agora e o nunca], que nos lembram da importância de agir no presente para moldar o futuro.

Convite:

Se você se interessou por essas reflexões e deseja aprofundar ainda mais esses temas, convido você a conhecer meus livros, onde compartilho insights sobre liderança, gestão emocional e como criar ambientes mais saudáveis tanto na vida pessoal quanto profissional.

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A Essência Por Trás das Minhas Palavras

A Metáfora do “Confeiteiro de Emoções”

Quando pensei na metáfora do “confeiteiro de emoções”, imaginei que ela poderia representar algo profundo sobre como lidamos com os nossos sentimentos e desafios. A ideia de que somos os “confeiteiros” de nossas próprias emoções me pareceu perfeita, pois, assim como na confeitaria, nossas emoções precisam ser escolhidas com cuidado e tratadas de forma equilibrada. A figura do confeiteiro, ao invés de ser algo mais comum como a de um “piloto” ou “capitão”, traz uma abordagem mais sensorial, mais humana. Um confeiteiro não apenas segue um roteiro, mas sente e ajusta sua criação no processo, assim como fazemos com nossos sentimentos e com as situações da vida.

Ao pensar nas emoções como ingredientes de um bolo, percebi que elas não podem ser misturadas de qualquer jeito. Precisam ser dosadas com atenção, e às vezes ajustadas para alcançar o melhor resultado. Isso me fez refletir sobre como, em um ambiente corporativo, todos os “ingredientes” – colaboradores, líderes e processos – precisam estar em sintonia para que o resultado final seja positivo e harmônico.

O Cenário do Sonho e a Reflexão Psicológica

Ao escrever sobre o sonho, queria criar uma atmosfera que fosse ao mesmo tempo misteriosa e reveladora. A ideia de que o laboratório dentro do sonho fosse, na verdade, o “interior de alguém” e que o bolo simbolizasse emoções, falhas e oportunidades de correção me pareceu uma maneira interessante de explorar essa conexão com o mundo emocional e psicológico. Quis usar esse cenário para mostrar que, muitas vezes, nossos problemas emocionais ou profissionais não são visíveis à primeira vista, mas têm raízes profundas que precisam ser compreendidas.

A ideia de representar um sonho como uma análise do inconsciente é algo que achei importante, pois acredito que esse tipo de introspecção é raro em textos sobre liderança e gestão. O comportamento humano no ambiente corporativo não pode ser compreendido apenas em termos lógicos e objetivos, e foi isso que tentei trazer ao usar a psicologia e a reflexão pessoal. Quis mostrar que dentro de cada decisão e atitude corporativa, há uma luta interna acontecendo que precisa ser entendida e gerida com empatia.

A Decisão e os Caminhos Possíveis

Aqui, o que busquei foi apresentar três opções universais, que são escolhas que qualquer pessoa pode fazer diante de um problema ou desafio. Ignorar, reagir de maneira negativa ou buscar uma solução proativa são alternativas que, na minha visão, refletem não apenas comportamentos pessoais, mas também atitudes que se refletem no ambiente corporativo. Isso me permitiu apresentar uma perspectiva diferente sobre como lidar com os obstáculos que surgem no caminho de uma maneira mais aberta e reflexiva.

A analogia da calda doce e vermelha como algo capaz de “curar” o bolo foi uma maneira de ilustrar como escolhas positivas e restauradoras podem ser uma resposta muito mais eficaz do que reações destrutivas ou apáticas. No mundo corporativo, muitas vezes esquecemos de investir em soluções que realmente curam o ambiente e as relações entre as pessoas. Quis mostrar que, ao invés de simplesmente reagir a um problema, podemos optar por soluções que visem uma verdadeira reparação e crescimento.

A Importância do Clima Organizacional

No momento em que falei sobre a importância de ver as empresas e as pessoas como organismos vivos, queria destacar algo que muitos textos sobre gestão esquecem: o equilíbrio emocional das pessoas dentro de uma organização é crucial para seu funcionamento. Ao considerar que cada empresa tem uma saúde emocional, assim como um ser humano, eu queria enfatizar o quanto o clima organizacional é determinante para o sucesso. Muitas vezes, a liderança emocional é negligenciada, mas é ela que pode realmente fazer a diferença no desempenho coletivo e individual.

A ideia de que atitudes e ações podem ser influenciadas pelas emoções, representadas aqui pelos ingredientes doces ou amargos, também foi uma tentativa de ilustrar como a gestão emocional não deve ser fria ou puramente racional, mas também sensível e cuidadosa. Esse equilíbrio é algo que vejo como fundamental para criar ambientes onde as pessoas não só se sintam bem, mas também possam prosperar em harmonia.

Reflexão Sobre Ajudar-se e Aceitar Ajuda

Quando cheguei ao ponto de falar sobre o confeiteiro de emoções aceitar ajuda, eu queria enfatizar a importância da humildade. Mesmo os melhores líderes e gestores não podem fazer tudo sozinhos. Aceitar ajuda e pedir apoio é algo que, na minha visão, não é apenas aceitável, mas necessário. Muitas vezes, em ambientes corporativos altamente competitivos, a ideia de pedir ajuda é vista como uma fraqueza, mas, para mim, é uma virtude essencial. Somos mais fortes quando reconhecemos que, às vezes, precisamos de um suporte externo para conseguir avançar.

Conclusão

O que tento expressar é que, por trás de nossas escolhas e ações, existe uma profundidade emocional que, muitas vezes, ignoramos. Eu usei metáforas sensoriais e psicológicas não apenas para ilustrar questões sobre gestão e liderança, mas para trazer à tona uma reflexão mais profunda sobre o que realmente impulsiona as pessoas e organizações. Ao refletir sobre as emoções como algo que precisa ser tratado com cuidado e equilíbrio, eu queria mostrar que a gestão emocional pode ser a chave para superar desafios no ambiente corporativo.