Quando Respeitar Regras é Essencial para a Sociedade
É inevitável a comparação feita por alguém que acabou de chegar de viagem ao exterior quando o assunto é trânsito, principalmente quando se refere à questão da educação no trânsito e o respeito às leis.
Alguns atribuem isso ao fato de que lá ele são mais civilizados, outros alegam ser por causa da cultura e há ainda quem diga que eles são mais evoluídos.
Contudo, ao conversar com qualquer residente daquele país, cujos visitantes ficaram encantados com os hábitos sociais positivos, ele lhe dirá que no dia a dia não é bem assim que funciona e que lá assim como cá, também existem indivíduos mal-educados.
Todavia, antes que você diga que lá é diferente, deixe-me continuar.
Sim, eles são educados no trânsito, tanto pedestres quanto motoristas, mas isso não é mera boa educação ou cultura. Eles são educados no trânsito e consequentemente respeitam às Leis de Trânsito porque se não o fizerem e forem pegos a punição é certa e vai desde pesadas multas até a perda de direitos.
Vamos deixar a questão se a lei funciona lá e não funciona cá para outra ocasião e vamos manter o foco na educação.
Qualquer pessoa desde quando ainda é bebê até a fase adulta, independentemente de seu país de origem, sua língua materna ou de qualquer outra característica demográfica é educada para a vida através do cerceamento de direitos e, em muitos casos, através de algum tipo de punição.
Pode parecer exagero, mas não é.
Bebês e crianças pequenas, mesmo antes de aprenderem a andar e falar exigem atenção, alimento e disponibilidade incondicional de qualquer um que esteja cuidando deles. E o que esses cuidadores fazem? Começam o processo de educação controlando horários e hábitos, definindo limites e obrigações, fazendo isso na maioria das vezes por motivos socialmente corretos, como a segurança dos próprios pequenos, por exemplo.
Uma das palavras mais usadas para educar qualquer um e principalmente as crianças é o não, que pode ser usado sozinho ou vir acompanhado de outros termos, como por exemplo, agora não, isso não é seu, não pode, não faz, não sobe, não mexe, não, não e não! E isso, independentemente do idioma falado.
E se o não é repetido mais de uma vez ou o indivíduo é reincidente, o processo de educação muda de nível e alcança o status de punição, sendo que no caso das crianças a punição é popularmente conhecida como castigo e neste caso a criança é chamada de desobediente.
Agora, se o pequeno é obediente e segue as regras ensinadas, é lugar comum os cuidadores ouvirem expressões em tom de surpresa ou admiração do tipo: “- Nossa! Que criança educada.”
Acho interessante notar que o resultado da relação entre o cuidador e o indivíduo que está sendo educado nem sempre é o esperado. Alguns cuidam e educam com gentileza, atenção e paciência e o indivíduo cresce mal-educado, enquanto outros cuidadores não estão nem aí para uma boa educação e a criança se desenvolve brilhantemente e vive bem na sociedade.
Ou seja, educamos para que os indivíduos aprendam desde pequenos a se controlarem quando em sociedade, sob o risco de serem reconhecidos como mal-educados se agirem em desacordo com as regras sociais estipuladas e aceitas pela maioria, e ser reconhecido desta forma é o primeiro sinal de que em breve começarão a perder direitos.
No caso das crianças e jovens mal-educados, esses direitos perdidos podem ser não serem aceitos no grupo ou naquela turma ou ainda não serem convidados para aquela tão esperada festa, por exemplo. Para os adultos, cujas responsabilidades legais são maiores, ser mal-educado pode significar perder o emprego, perder o direito de dirigir e até mesmo perder o direito à liberdade.
Ser socialmente educado é tão mais fácil quanto for compreendido e assimilado o fato de que, embora sejamos indivíduos, não estamos sozinhos e o viver em sociedade exige o estabelecimento de regras, algumas apresentadas como convenções sociais, enquanto outras são dispostas como documentos legais.
É curioso notar como geralmente não exercer o controle social pela educação em nome de propiciar ao indivíduo mais liberdade e autonomia, normalmente leva à libertinagem, pois o indivíduo que acredita ser completamente livre para ser e fazer o que quer não costuma levar em consideração o fato de que ele não vive sozinho, mas em sociedade.
Em nossas empresas não é diferente, afinal empresas são construídas por pessoas e consequentemente refletem para o mercado a educação de seus componentes.
Mas não basta apenas estipular regras e convenções ou mesmo instituir um código de ética. É preciso que todos os colaboradores, independentemente do porte da empresa, desde o chão da fábrica à alta diretoria, compreendam que suas atitudes individuais representam e compõem o nível de educação percebido pela sociedade consumidora de seus produtos ou serviços.
Ser uma empresa bem-educada significa que ela respeita as leis e as regras e convenções sociais, além de manter-se ocupada em propiciar uma clima organizacional e uma comunicação corporativa condizentes com esse respeito.
Ser bem-educado, seja no trânsito, seja na vida, não tem nada a ver com ser bonzinho. Tem a ver com o fato de que você sabe o seu lugar no mundo e como se comportar em sociedade. Tem a ver com o fato de que, independentemente de concordar ou não com o que está estabelecido, você respeita as regras.
Então, você se considera uma pessoa bem-educada ou acredita que as regras não se aplicam a você?
Se você é uma pessoa bem-educada, já deve ter notado que isso torna os relacionamentos um pouco mais fáceis. Todavia, se você não concorda com o que está estabelecido, não quebre as regras. Ao invés disso, sugiro que proponha as alterações que julgue serem pertinentes e que sejam justificadas ou trabalhe para que você mesmo seja o agente da mudança que deseja, ou seja, arregace as mangas e mãos à obra.
Comentário Final:
A reflexão sobre como a educação e o controle social impactam a convivência em sociedade e no trânsito aqui apresentada pode ser relacionada aos artigos [Educação, controle social?], [Entre o agora e o nunca] e [Felicidade Insatisfeita]. A forma como lidamos com as regras sociais reflete diretamente nas nossas escolhas e nas oportunidades que criamos ao longo da vida. Em situações como o trânsito ou a gestão corporativa, é essencial entender que a educação é a base para o respeito às leis, e a adaptação das regras ao contexto é um processo contínuo que exige reflexão e ação.
Convite:
Convido você a explorar mais sobre esses temas e como eles se conectam com a nossa vida profissional e pessoal em meus livros. A reflexão que inicia neste texto sobre como as regras sociais moldam nossas interações pode ser aprofundada em outros trabalhos, ajudando você a entender melhor o impacto das escolhas em sua trajetória.

A Essência Por Trás das Minhas Palavras
O que procurei explorar neste texto são algumas ideias que,
embora tratem de temas conhecidos, tentam lançar uma nova luz sobre como a
educação e o controle social se entrelaçam na nossa vida cotidiana. Ao trazer o
exemplo do trânsito, eu queria ilustrar de forma clara como esses conceitos,
muitas vezes discutidos de maneira separada, na verdade estão profundamente
conectados em diferentes esferas da sociedade, como a família, as empresas e as
leis, sem que haja uma linha divisória rígida entre elas.
Educação como cerceamento e punição
Desde a infância, aprendemos que a educação envolve não
apenas o aprendizado de habilidades, mas também a imposição de limites e até punições.
Esse é um ponto que não é exatamente novo, mas procurei estabelecer uma conexão
direta entre essa forma de educação e o que vemos em nossa sociedade adulta,
especialmente no comportamento no trânsito. Ao refletir sobre como somos
moldados por consequências legais e sociais desde a infância, queria mostrar
que o “controle social” se infiltra nas nossas vidas de diferentes
maneiras, sendo um reflexo da forma como nos comportamos em público, seja como
crianças em casa ou adultos nas ruas.
A relação entre liberdade e controle social
A busca pela liberdade sem limites é um tema que sempre me
intrigou. No texto, tentei abordar isso de uma maneira que fosse ao mesmo tempo
filosófica e prática, aplicando a reflexão ao nosso cotidiano. Ao destacar o
contraste entre liberdade individual e as normas sociais, procurei mostrar que
há um equilíbrio essencial entre a autonomia e o respeito às regras. Ao abordar
essa questão, quis destacar que, sem certos limites, a liberdade pode
rapidamente se transformar em libertinagem, o que é uma ameaça ao funcionamento
harmonioso da sociedade.
Empresas como reflexo da educação social
Uma das comparações que mais me interessa, e que quis
aprofundar, é a ideia de que as empresas não são apenas ambientes
profissionais, mas também refletem o nível de educação social dos indivíduos
que as compõem. A educação que recebemos ao longo da vida – seja na família, na
escola ou na sociedade – acaba sendo um reflexo direto no comportamento que
adotamos nas empresas. Acredito que essa analogia é importante porque amplia a
forma como entendemos as organizações, trazendo à tona questões de ética e
responsabilidade social que muitas vezes ficam em segundo plano no ambiente
corporativo.
Questão do “bem-educado” e a não conformidade
com as regras
Outro ponto que procurei discutir foi a crítica à ideia de
que ser “bem-educado” significa, necessariamente, ser submisso ou
comportado de maneira dócil. Ao invés de ver a boa educação como uma forma de
conformismo com as normas, quis mostrar que ela está mais relacionada ao
entendimento dessas regras e ao respeito por elas, mesmo quando não concordamos
com elas. Para mim, essa perspectiva ajuda a repensar o que significa realmente
ser educado: é mais sobre a conscientização das normas e o papel que elas desempenham
no comportamento social do que uma simples obediência passiva.
No final das contas, todas essas reflexões se conectam para
criar uma visão mais integrada de como as diferentes esferas da sociedade se
influenciam mutuamente. Ao tentar construir essa teia entre educação, controle
social, leis e comportamentos nas empresas, espero ter contribuído para uma
compreensão mais ampla de como as ações individuais impactam o coletivo.